TRAÇOS DO SERTÃO, CENAS DA VIDA: GUIMARÃES ROSA

E JURACI DÓREA

 

Rubens Alves Pereira - UEFS

 

 

Esta comunicação, em verdade, é apenas a apresentação de um projeto de pesquisa que está em sua fase inicial. Portanto, me limitarei a alguns comentários sobre aspectos que, neste trabalho, aproximam as obras do escritor Guimarães Rosa e do artista plástico Juraci Dórea, tendo o mundo-sertão como cenário e personagem nesta viagem artística e cultural.

De uma lado, o texto de João Guimarães Rosa – surpreendente amálgama de discurso e performance que atualiza, em planos distintos mas simultâneas, quadro e movimento, ação e reflexão. Esses processos são costurados por uma voz que anima os enunciados do texto, uma oralidade que os desloca e enriquece, um gestual que os matiza em corpo e alma, de contextos ou cronótopos que neles se entrecruzam, de virtualidades que os atravessa em velocidades múltiplas.

De outro lado, sobretudo através do “Projeto Terra[1], as formas e traços do artista plástico feirense Juraci Dórea, – suas esculturas plantadas no sertão criam inesperados contextos e confrontos na dinâmica produção/exposição/recepção da obra de arte; seus quadros, cada qual internamente emoldurado por “bandeirolas” sobre um outra moldura de luz, traz cenas de um cotidiano popular sertanejo nas quais se evidenciam gestos e valores os mais diversos, tanto no plano individual como no trânsitos coletivos, criando um ambiente ao mesmo tempo dinâmico e estático, lírico e dramático. Como em Guimarães Rosa, tempos e espaços se interpenetram, bem como os planos da composição e da representação, ora fixando-se num enquadramento tipificado (“O cavaleiro esse – o oh-homem-oh – com cara de nenhum amigo”, G. Rosa, “Famigerado”), ora desdobrando-se em cenas e cenários articulados (“Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente ‘a minha porta, equiparado, exato; e, embolados, de banda, três homens a cavalo.”, id., ibid.). Juraci, Como Rosa, move-se num espaço incômodo, pois indefinido, entre o mito, o rito e a recitação; entre o texto/imagem, e o mundo-sertão teimosamente se recompondo às expensas da ficção.

No jogo de perspectivas dos dois artistas, pretendo enfocar imagens e narrativas sertanejas neste trânsito entre experiência cultural, sócio-antropológica, e representação artística, valendo-me tanto de objetos textuais e plásticos de G. Rosa e J. Dórea, como de falas e fatos registrados in loco, nos sertões de Minas Gerais e Bahia.

 

Marcas

 

O Sertão se nos apresenta como um espaço/tempo cujas especificidades humanas e ambientais têm sido realçadas por várias formas de expressão artística e por inúmeras representações míticas e históricas. Hoje, com a diversificação das abordagens estéticas e científicas, com a emergência dos estudos culturais, sensíveis a questões identitárias ou a especificidades setoriais em meio a um processo de deslocamentos radicais de fronteiras sócio-políticas, econômicas e culturais, acreditamos nas potencialidades de um estudo interdisciplinar envolvendo processos efetivos de construção ou disseminação de marcas que perpassam igualmente valores de conformação local (modos de acontecer do sertão) e concepções com validação universal (formas de reescrever o regional). O Sertão transparece neste trabalho como um entrechoque de ficção e realidade, de narrativas e profecias, um local de tempos e espaços superpostos; enfim, como queria Guimarães Rosa, o Sertão como topos específico na geografia humana, como um espaço dinâmico de grandes e imprevistas travessias.

Traremos para o campo da reflexão crítica o surpreendente mundo-texto de Guimarães Rosa, com suas dotações e dicções sertanejas em meio às inovações formais, bem como as formulações plásticas de Juraci Dórea, integradas com os materiais (couros e estacas), arraigadas no imaginário (as lutas lendárias, os traços do cordel, o cotidiano doméstico e social) e pautadas num importante plano comunicativo do Sertão (a distensão da oralidade que impregna as suas obras).

Ao dispor e cotejar criticamente essas duas linguagens artísticas (verbal e plástica), no contraponto de realidades específicas e distintas (o universo sertanejo, popular, e o universal artístico, erudito), acreditamos possibilitar um olhar crítico mais envolvido não só com as obras de Guimarães Rosa e de Juraci Dórea, como também com as práticas e o imaginário sertanejos. No comércio das trocas simbólicas e das construções imaginárias da sociedade humana, o Sertão e as obras de G. Rosa e de J. Dórea são capítulos que se interpenetram de forma bastante sugestiva para uma reflexão sobre valores sócio-antropológicos e artísticos.

Pretendo refletir sobre a determinante presença do Sertão nas obras de Guimarães Rosa e de Juraci Dórea, atualizando perspectivas intersemiótica e interdisciplinar que possam dar conta de aspectos relevantes da cultura regional sertaneja, como também problematizar as possibilidades e indeterminações do próprio estatuto conceitual da arte, esta no seu trânsito entre os dogmas canônicos e os espaços periféricos de articulação.

Nesse sentido, podemos dizer que os objetivos gerais desta pesquisa passam por uma releitura da obra de Guimarães Rosa pelo viés das matrizes sertanejas que enformam seus conteúdos históricos, míticos e ficcionais, e que matizam seus recursos expressivos, sua linguagem inventiva e suas máximas e reflexões filosóficas. Por outro lado, objetiva discutir nas esculturas e pinturas de Juraci Dórea (cujo âmbito temático e expressivo converge para o seu “Projeto Terra”) o aspecto auto-reflexivo que afeta igualmente as dimensões simbólicas e comunicativas destas obras, da produção à recepção in loco, nos ermos e nas feiras do interior. Enfim, objetivamos construir um olhar crítico sobre as obras desses dois artistas, cruzando-as em pontos específicos e observando suas formas peculiares, em alguns aspectos convergentes, de vivenciar e de representar o universo sertanejo, no seu cotidiano dorido e mágico.

O trabalho será desenvolvido, de um lado, a partir da leitura da obra ficcional, dos apontamentos e entrevistas de João Guimarães Rosa, dos documentários a seu respeito, bem como através de observações e registros fotográficos e fonográficos in loco, nos sertões de Minas Gerais, buscando flagrar memórias e experiências vivenciais que interagem com o universo rosiano.

Quanto a Juraci Dórea, procederemos uma reflexão crítico-descritiva sobre suas obras, em particular sobre as produções inerentes ao “Projeto Terra” – esculturas, quadros, murais, bem como os livros que registram e relatam as instalações das obras de arte e as recepções nos vários ambientes em que foram expostas ou inseridas tais obras. Pretendemos ainda revisitar alguns locais das instalações das obras de Juraci Dórea, procurando detectar, através de entrevistas com moradores locais (ou documentar, através de mecanismos audiovisuais), a ação do tempo e das pessoas sobre as referidas obras. Além disso, reeditar, com a ajuda do próprio artista (Juraci Dórea), algumas dessas experiências, seja para aprofundar ou desdobrar determinados aspectos socioculturais e estéticos detectados no primeiro encontro-confronto da obra esteticamente articulada com o ambiente existencial que a motivou, seja para constituir um acervo básico tendo em vista a apreciação e/ou investigação acadêmica desta experiência de cunho interativo entre mundo e linguagem, entre ação e representação, entre arte e cultura.

Por fim, cotejar aspectos sócio-antropológicos e estéticos que marcam as concepções de Guimarães Rosa e de Juraci Dórea nesta vivência do Sertão que engloba investimento existencial e conformações estético-filosóficas em relação aos imponderáveis recantos sertanejos. Ou ainda, cruzar o texto e suas imagens na obra de Rosa, com as imagens e seus textos nas construções de Dórea, no contexto das artes e ofícios sertanejos.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura universal. 2. ed.; São Paulo: Perspectiva, 1987.

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Trad. de Myrian Ávila. [et al.]. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

COUTINHO, Eduardo F. (Org.). Guimarães Rosa: Fortuna crítica. 2 ed.; Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.

DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix . Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Trad. de Aurélio Guerra Neto [et. al.]. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995, v. I-II / 1996, v. III / 1997, v. IV-V.

DÓREA, Juraci. Terra – Projeto terra: canção nº 7 / fotos de Juraci Dórea. Salvador-Ba.: Edições Cordel, 1985.

DÓREA, Juraci (s/d). Sertão Sertão – Projeto terra. Salvador-Ba.: Edições Cordel.

HUIZINGA, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. Trad. de João Paulo Monteiro. São Paulo: Perspectiva, 1980.

PANOFSKY, Erwin. La perspectiva como “forma simbólica”. Trad. de Virginia Careaga. Barcelona: Tusquets Editor,.

ROSA, João Guimarães. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994 (v. I e II).

ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a “literatura” medieval. Trad. de Amália Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.



[1]Projeto Terra” – Fruto de longa experiência existencial e artística de Juraci Dórea no universo sertanejo, este trabalho realiza-se sistematicamente desde 1982, quando foi premiado num concurso de projetos de arte promovido pela Fundação Cultural, através do Museu de Arte Moderna da Bahia. Em1983, Ganhou o Concurso Ivan Serpa – Bolsa de Apoio à Produção de Artistas Plásticos – MEC/FUNARTE/INAP/CAPES. Em 1985, publicação dos resultados destes projetos premiados. O “Projeto Terra” levou esculturas em couro, quadros e murais a várias localidades do sertão baiano, registrando em gravações e fotos a reação do povo local. Como diz o jornalista José Carlos Teixeira, Juraci Dórea busca “penetrar os mistérios do mítico universo sertanejo”, e prova disto são “os quatro pontos do sertão baiano por ele escolhidos para desenvolver a proposta do ‘Projeto Terra’: Feira de Santana, a porta do sertão; Monte Santo, com seu referencial místico; Canudos, palco da tragédia do Conselheiro; e o Raso da Catarina, inexpugnável refúgio dos cangaceiros. Todos eles concentradores dos mais fortes referenciais da formação da Cultura sertaneja” (in Dórea: 1985).